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MEDICINA

Videogame medicinal


A realidade virtual começa a ser usada como alternativa à terapia tradicional para combater medos, memórias traumáticas e diminuir a dor

BEATRIZ MONTEIRO
Revista Epoca 09/10/2004

Arquivo pessoal
INVENTOR
Hoffman e Mundo das Aranhas, que teve sucesso com 80% dos pacientes

O mundo de Matrix ganha espaço nos consultórios médicos. Em vez de deitar no divã ou se entupir com remédios, pacientes colocam óculos ou capacetes e saem dirigindo um automóvel ou falando para uma platéia - tudo virtualmente. Programas de computador começam a ser usados por pessoas com fobias, permitindo que elas enfrentem seus maiores pesadelos sem sair da cadeira. ''A realidade virtual pode ajudar a controlar a dor e superar o medo e memórias traumáticas'', explicou a ÉPOCA Hunter Hoffman, diretor do Virtual Reality Analgesia Research Center (Centro de Pesquisas do Uso de Realidade Virtual para Tratamento da Dor) da Universidade de Washington. ''A grande vantagem é dar ao paciente a sensação de que ele está em outro ambiente, aonde ele temeria ir na vida real. É uma alternativa para quem não responde à terapia tradicional.''

A acrofobia (medo de altura), a claustrofobia (medo de lugares fechados) e a incapacidade de falar em público são algumas das doenças atacadas. Há programas para cada tipo de fobia. Em Mundo das Aranhas, por exemplo, a pessoa caminha por diferentes ambientes, tocando nos aracnídeos. Nos Estados Unidos, 80% das pessoas submetidas ao procedimento obtiveram sucesso. Para os americanos sobreviventes do ataque terrorista de 11 de setembro, criou-se um programa em que a pessoa é capaz de rever o atentado e contar tudo o que sentiu naquele dia. ''Ao levar um paciente que não consegue dirigir a conduzir artificialmente na chuva, o médico está dando todas as ferramentas para que ele supere esse medo'', diz o psicólogo e analista de sistemas Basileu Menezes. ''Na realidade virtual, o profissional desenvolve situações complicadas de ser criadas e encaradas num ambiente real.''

Os pacientes enfrentam suas fobias
sem sair da cadeira

Um grupo liderado por Hoffman está usando a realidade virtual como ferramenta de distração para vítimas de queimaduras. ''A idéia de que a dor é um componente psicológico é antiga. O que fizemos foi aprimorar essa teoria'', conta ele. Em Mundo de Neve, o paciente tem a ilusão de estar flutuando sobre uma montanha de gelo. Nesse território artificial, ele se diverte atirando bolas de gelo em tudo o que aparece, como bonecos de neve e pingüins. A maioria dos queimados relata nada sentir enquanto estão submersos no programa. ''Um mesmo sinal de dor é percebido com maior ou menor intensidade dependendo do que vai na cabeça do paciente. Estando no meio da neve mesmo que virtualmente, ele pode nem se ligar na dor da queimadura'', explica o neurocirurgião Cláudio Corrêa, do Hospital Nove de Julho de São Paulo.

Outro avanço é a associação da técnica com aparelho de biofeedback - instrumento que informa, através de sensores colocados na pele do paciente, toda alteração ocorrida no organismo quando submetido a stress. No programa contra claustrofobia, o paciente consegue se ver no elevador e, no canto da imagem, ler num pequeno quadro as informações de como seu corpo está reagindo naquele momento. ''A grande vantagem desta associação é que a própria pessoa pode se gerenciar'', diz Leopoldo Kneit, presidente da empresa que comercializa os programas no Brasil.

Marcelo Rudini/ÉPOCA
MEDO DE ALTURA
A engenheira Claudete Klas conseguiu curar uma acrofobia que a prejudicava no trabalho, após dez sessões com o programa virtual

A popularização da realidade virtual para fins terapêuticos é barrada pelo alto custo do equipamento. Mesmo assim, aos poucos vem ocorrendo no Brasil. A engenheira curitibana Claudete Klas, de 35 anos, resolveu experimentar a técnica quando seu medo de altura começou a atrapalhá-la profissionalmente. ''As sensações que eu tinha quando estava na obra eram as mesmas que tive na realidade virtual'', lembra Claudete. Depois de dez sessões de uma hora, estava curada. Apesar da técnica ter sido amplamente estudada nos Estados Unidos, há quem faça ressalvas. ''O médico precisa estar muito preparado e conhecer profundamente o paciente'', ressalta o psicólogo Ivo Donner. ''Afinal, é como se alguém acendesse uma lâmpada, deixando ver um monstro. Se o paciente não estiver pronto para vê-lo, é melhor deixar a lâmpada apagada. O medo pode virar um pavor incontrolável.''

Fotos: divulgação
MEDO DE DIRIGIR
Programa possibilita ao paciente guiar em ambiente virtual
MEDO DE AVIÃO
Um simulador recria a sensação de estar voando
VÍTIMAS DE QUEIMADURAS
Mundo de Neve prega interação para distrair pacientes
CLAUSTROFOBIA
O teto e as paredes podem ser reduzidos conforme o comando